sexta-feira, 30 de julho de 2010

Amarelo

E a vida cutuca, labuta
Assobia os últimos alentos
Capenga se deita, descansa
Já não ouve, não fala, não vê

Reagir já não pode e, ao meu ver,
Deitada no leito, ela apenas dorme
Puxa o ar sem pressa, com força
E toda vez que inspira assusta
E quando expira alivia a luta

O ar que vai e não sabe se volta
Traz aos espectadores a revolta
De nada poder fazer ao certo
Somente assistir ao seu rosto
Pintar-se lentamente de amarelo

E aos poucos sopros se vai à sorte
Vai Laurita, abraços à Tieta!
Vai no leito, a dor no peito
Vai a boneca, os cabelos, os dedos
Vai mais essa avó para o colo da morte.

E à morte eu imploro
Que dela cuide, nine e alimente
Dê outra história a esse pulmão doente
Agradeço a ela e ao acaso da vida
A chance de ver ainda alegre
Quem hoje se foi ferida.

Danielly Melo

terça-feira, 20 de julho de 2010

Saudade

Eu morri. Alguém para me enterrar?
Saudade mata e esqueceram de avisar.
Ou melhor, avisaram, enganaram, disseram que ia passar.
E essa dor infeliz no corpo, nos olhos, na alma, o que é?
É isso que chamam saudade?
E quem é o louco que espalha ensandecido
Esse boato maníaco que não é letal a dor da falta?
Sim, acredite amigo, esse bicho mata!

Mata, maltrata e a vida ameaça.
Saudade é como uma picada de mosquito:
Coça, inflama, incomoda, arde e fere
O bicho suga o sangue e o espírito
Mas, não, não desespere!
A picada passa, vai embora, às vezes deixa a marca
A pele volta, reage, acorda da ressaca.

Saudade assassina a vida
Mas quem disse que a dor não a ressuscita?
Saudade sem razão é órfã, é morta
Mas pulsa ainda sangue na aorta
Saudade é meu cérebro, meu coma
And I still miss you, mesmo em outro idioma.


Portanto,

Me enterrem, fechem minha cova,
Cavem fundo essa terra de ninguém
Não quero da saudade nem seu último vintém
"Gravedigger, when you dig my grave
Could you make it shallow so that I can feel the rain?"

Danielly Melo

terça-feira, 8 de junho de 2010

Se você pudesse... Mas você não pode

Porque se você viesse
E a chance me desse
De falar desse romance
Que veio assim de um rompante
Como se ele não ferisse
Os versos sólidos da Clarice
Ah, se você me entendesse
Ah, se você não morresse

Porque se você quisesse
Mostrar ao mundo a sua força
O seu amor que diz sentir
Sua lealdade tão sem fim
Fazer abrolhar o óbvio
Sem precisar usar seu ópio insólito
Ah, se você merecesse
Ah, se você me lesse

Porque se você pudesse
Mesmo ser onipresente
Onisciente e onipotente
E no seu devaneio me fitar
Fazer prelúdios pra mim
Quando eu precisasse, aí sim
Eu sentiria sua presença
Amaria-te sem licenças
Ah, se você pudesse
Ah, se você quisesse

Mas para o lado eu vou olhar
E não vou te descobrir
Os olhos no céu vão te procurar
Tens mesmo que partir?
Sensação de ser Tomé
Tomada com a falta de fé
De achar que a vida é um breu
E que morreu esse tal de Deus.
E aqui estou eu a escrever o meu afeto
Para um cético defunto analfabeto

Ah, se você soubesse
Ah, se você existisse
Ah, se você descesse
Ah, se você notasse
Ah, se você me amasse

E onde você foi parar, meu Deus?
Seu cuidado já não sinto
Seu calor me congelou
Sua neve derreteu
Seu amor, você, Prometeu
Meu fígado corroeu
Rezo agora para que Zeus
Chacine minha sede num só gole
Porque se você pudesse, Deus...
Mas matar você não pode.

“I’ll see you next Sunday”

(Danielly Melo)

sábado, 29 de maio de 2010

Pessoas do mar.

Amam a inconstância da maré,
O gosto salgado da água,
A vida cigana das ondas.

Pessoas do mar.

Odeiam a vida sólida das areias,
A concretute das rochas,
Os segredos das conchas.

Pessoas do mar.

Peixes vivem bem sem ar.
Desce a espinha a cortar,
A voz rouca que precisa calar.

Pessoas do mar... Gente para não se amar.


(Danielly Melo)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mar, salgado mar...

“Não vá ainda, não... Espera anoitecer”
Deixa ao menos eu adormecer
Saia na calada. Deixe-me sonhar e achar
Que ao dormir alguém vai me acordar

Eu sei bem onde isso vai parar
Você vai voltar pro mar
Ele é a criança do sonhador, do pescador
Balança para lhe fazer ninar

E vai lhe colocar para dormir, pescar, nadar
E quando seus olhos abrir
De água vai se encharcar
Mas eu, “eu sou a chuva pra você secar”
Mesmo sabendo que você prefere a água salgada do mar.

(Danielly Melo)

Aos Anjos, com carinho

Ah, se eu pudesse...
Uma vez na vida retornar
Ganhar o futuro e o passado bucolizar
Única certeza teria, de que estaria
Sem dúvidas ao lado de Anjos
Tocar suas asas cósmicas e de seus olhos arrancar
Os vermes que o querem roer e carbonizar

Distâncias que nos tentam afastar
Oh, maldito zodíaco que insiste em chacotear
Sua trajetória pálida e tão digna aqui na Terra

A mesma terra orgânica e fria que o conserva
Num chão sedento de larvas e poesias, lá onde
Jaz o Anjo torto, o bicho morto que um dia
Ostentou ciência, sabedoria, quimera
Sabedor da lama que estava à sua espera!

(Danielly Melo)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Descomplique

Ahhhhh, a arte de ser simples...

"Amor, humor"

terça-feira, 4 de maio de 2010

A mão invisível

O que é pior? Acreditar na mão invisível do liberalismo econômico ou sair por aí tentando convencer as pessoas de que, segundo o falecido e, portanto, invisível George Carlin:

"There's an invisible man living in the sky who watches everything you do, every minute of every day. And the invisible man has a special list of ten things he does not want you to do. And if you do any of these ten things, he has a special place, full of fire and smoke and burning and torture and anguish, where he will send you to live and suffer and burn and choke and scream and cry forever and ever 'til the end of time! But He loves you"

Uau! E aí? E olhe que eu nem sei se fiz mesmo a pergunta certa. Talvez o termo correto nem fosse “pior”. Poderia usar “cômico”, mas isso ainda sem descartar o “trágico”. E trágico mesmo é o fim de quem acredita. ACREDITAR. Segundo o Aurélio, ter fé, crer em alguma coisa. Pra mim, cegar-se de certezas. Exatamente aquelas mais desconhecidas. São estas mesmas, estas que você não pode ver ou tocar. Estas são as certezas de um cego que acredita.

Feche os olhos. O que vê? Nada? Escuro? Defina. Vamos, tente... Impossível.

Nasce aí o verbo. O verbo acreditar, que na gigantesca história da humanidade se resume a um monossílabo de forças descomunais. Uns dizem que ele move montanhas. Outros que sem ele nada é possível. Há quem diga que o bicho causa cegueira, ou mesmo alienação. O monossílabo até guerra causa e é o único que no fim dela acredita. É aquele que é bom se ter guardado numa caixinha de cacarecos, sempre atrás do armário.

Duas letrinhas que mesmo no alfabeto vêem lado a lado. Como se não existisse razão de ser se vivessem cada um no seu quadrado. O “fê” e o “ê”. Aqui no Nordeste: o “éfe” e o “é”. Importa mesmo é o estrondo que a bomba faz quando colocamos o número 3 dando as costas para quem vem antes do ponto, ou melhor, da letra G: FÉ!

Fé em que?
Fé na vida!

(Danielly Melo)

sábado, 1 de maio de 2010

O Meu Nirvana - Augusto dos Anjos




No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Idéia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tato - ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebéias -

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocando a minha forma de homem
Pela imortalidade das Idéias!

And isn't it ironic, don't you think?

E na Rua Escura, ali na praça, no bar do Estrangeiro
Vi uns olhos negros e um sorriso belo cheio de graça
Vi a mocidade, vi papo vai, papo vem
Vi-me de imediato num tal de querer bem
Afinidade de longe, rápida e cruel
Que trouxe a ilusão de colocar Lil’Devil uma vez no céu

Mas o “céu está caindo, o céu está caindo”
Disse o Chicken Little certa vez
Desmoronou mesmo ali, na praça
E deu vontade de fazer pirraça com a própria desgraça
Mas aborrecimento foi contido e cinismo nem surpreso estava
Fez cara de mesmice, achando tudo uma chatice
Saiu, pisava forte, fugiu da praça

Mas that black eyes ainda fitavam
Impediram a fuga e para a praça retornaram
Estavam agora sentados e, de novo no papo vai, papo vem
Os olhos se encontraram tentavam e tentavam
Mas não se decifravam. Liam-se, confundiam-se
E se o sorriso não mais aparecia, os olhos negros eram globos letais
Não se apertavam, tinham forma assustada demais
E, sem roupa, se justificavam e juravam ser reais

A chuva precipitou e da praça os afastou
Decidiram pôr distância na vontade que trazia ânsia
A mesma que uma vez escapou “da boca de um cardíaco”
A mesma que traria, quem sabe, a “repugnância”
E Lil’Devil percebeu que não adiantava
Que seu pedido o garçom nunca acertava
“10.000 colheres quando tudo que você precisa é uma faca”
Uma faca pra rasgar o trevo, perfurar o nervo

Cortado o pulso que já não pulsa
Resta ao verme o trabalho de roer os olhos,
Sim, aqueles olhos negros!
Verme vai comer, roer e vai deixar só os cabelos
E a diaba que sonhou com Anjos vai acordar do pesadelo
E assistir à própria quimera, mas ela?
Ah... Ela já é acostumada à lama que sempre a espera.

Pois o Augusto que ela queria mora longe
É de terra arredia. Mora sozinho numa a casa
Muito engraçada, sem teto, sem nada
Serve ela de abrigo fúnebre desses versos iludidos
Guarda ela os segredos, “os versos íntimos”, “os tempos idos”
Essa casa keeps everything
Guarda tudo isso que é muito ironic, don’t you think?

(Danielly Melo)

domingo, 4 de abril de 2010

Os míopes

"Enquanto o telégrafo nos dava notícias tão graves (...) coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam."
(Machado de Assis)


São 26 anos agora. Pelo menos 17 de miopia. E nesse tempo tudo que tentei fazer foi ver. Abrir os caminhos, olhar para o chão que eu ando para não pisar em espinhos... Talvez em ovos. Mas olhar não é ver, nem mesmo enxergar.
Hoje acho que descobri porque sou míope. Tenho dificuldade para enxergar o que está muito longe de mim. Onde estão meus óculos? Onde deixei meus olhos de vidro? Será por isso que são eles as ‘janelas’ da alma?

Não jogue bola perto de minhas janelas! OK?

É, não se engane. Machado não pousou de grande visualizador do futuro, não disse que míopes enxergam longe. Disse que esses olhos esmagados conseguem ‘enxergar onde as grandes vistas não pegam’. Até onde vai sua ‘vista’? Sabia que de perto o míope enxerga melhor que você?
Não, não é o futuro que eu sei ver. É meu presente, perto, bem de perto. É lá que eu sei viver. E se meu passado é estrábico, se meu presente é míope... Que devo dizer do meu futuro?

Que é cego.

Danielly Melo

terça-feira, 9 de março de 2010

Pega-ladrão não! Pega-vizinho!

É, a brincadeira hoje é diferente. Na minha época de escola brincava-se de “pega-ladrão”. Um dos componentes era escolhido como alvo e perseguido como ladrão pelos outros. Ele tinha que correr, se esconder e fazer de tudo para não ser pego. Mas os tempos modernos chegaram. Hoje não se persegue mais ladrões. Bom mesmo é prender vizinho. E não se espante com o trocadilho com ladrão, porque parece ser assim mesmo que a brincadeira “cão e gato” enxerga o morador do seu prédio, condomínio ou bairro. Ele é um ladrão! Rouba seu silêncio, sua paz, seu comodismo e sua atenção. Você passa a viver em função da vida do ladrão. O que o ladrão está fazendo hoje? E essa zoada, o que é? Ele tá cortando cebola? Mas uma hora dessas? E agora? Isso é a descarga? Nossa, mas é a terceira vez seguida já! Será que o ladrão está com dor de barriga? E porque ele se levanta tanto no meio da noite para abrir a geladeira? E precisa mesmo ligar a torneira pra lavar o copo de madrugada? Ai, ele acorda cedo demais e já vai bater carne, que saco!
Sim... Que saco! Imaginem vocês que, de repente, não mais que de repente, esse ladrão tenha também a vida dele. Que acorde cedo e vá bater carne porque trabalha o dia todo e precisa levar o almoço do seu filho, ou do companheiro(a) já pronto pela manhã. Que chega tarde e vai cortar cebola porque aquela é finalmente a hora que ele pode jantar, que abre a geladeira a noite porque sofre de insônia e, convenhamos, também sente fome, que dá descarga a noite porque é uma pessoa higiênica e que, sim, às vezes ele tem dor de barriga. Que lava o que suja a noite por não ser muito chegado a baratas. Enfim, ladrões roubam e vivem. Mas e então meus caros, foi muito difícil imaginar?
Pois bem, voltemos à realidade. Você, com certeza, tem um ladrão e é um. Digo, vizinho. Certo? Você tem se preocupado muito com a vida dele? Presta atenção em quantos passos ele dá para terminar de subir a escada? Sabe qual a marca do chinelo que ele está usando hoje? Sabe a hora que ele sai e entra em casa? Incomoda-se com sua risada? Seu vizinho é gordo, pesado e anda muito pelo apartamento dele, incomoda? Seu vizinho é bonito, solteiro, sai à noite e usa salto alto, incomoda? Mesmo que ele desça os degraus descalço até a porta do condomínio? Seu vinho é inteligente, bem articulado e quando fala com você sempre tem seus argumentos, incomoda? Seu vizinho é feliz, tem amigos, faz churrascos, conta piadas e sorri demais, incomoda?
Façamos assim, vou encurtar a leitura e me propor a perguntar o que, no seu ladrão, não incomoda, ok? E aí? Pensou em alguma coisa? Não consegue, não é? Até a voz do seu vizinho incomoda! Isso é porque elefantes incomodam muita gente. Vejamos quem são nossos elefantes. São animais de grande porte que, por alguma razão, desviam a sua atenção de sua própria vida para a vida dele. Deixe-me dar uma sugestão: quando elefantes começam a incomodar você precisa tomar uma atitude, certo? É sabido que esses grandes animais tem medo de ratos, mas é pouco higiênico tentar ser um. Também não curtem muito as formigas, mas você não quer ser pisoteado, quer? Bem, amigo, faça o seguinte, compre um gato!
Isso mesmo, um gato! Gatos tem muitas vidas, fora a sua e de sua família, serão muitas para você se ocupar. Multiplique essa quantidade de vidas pelas horas gastas com atenção para cada uma delas. Agora repare que seu dia só possui 24 horas. Percebeu? Você ocupou seu tempo com a aquisição de um simples animal, parabéns! Algumas soluções simples podem mesmo mudar a vida de alguém, concorda?

E viva as diferenças!

(Danielly Melo)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Minha infância Kaká

E onde moram as memórias?
Escondidas nas lembranças?
Lembrei de que?
Lembrei da minha amiga, minha inseparável,
Minha linda, minha doce ânsia...
Lembrei dela... Ah, a minha infância!

Infância e eu ficamos juntas até os 14 anos.
Nossa, 14 anos... meus melhores dias.
Minhas lembranças mais fundas,
Minhas opiniões sempre tão arredias.

Queria voltar.

Aos 14 anos infância me deixou...
Foi embora pra bem longe
E desde então nunca mais vi.
Foi-se aos prantos e nas lágrimas
Levou pedaços grandes de mim

Mas ela foi e deixou maturidade,
Que substituiu com propriedade
Esse espaço gigante que infância deixou.
Deixou saudade.
Saudade de nossa puberdade.

E hoje infância me manda um email,
Dizendo que quer lembrar sem medo,
Das lembranças que a fazem sorrir e também chorar...
Diz que quer para sempre me admirar

E eu respondi que não importa o tempo,
A distância ou a falha memória...
Construímos já a nossa história.
Importa mesmo o quanto eu vou amar,
Até enquanto viver, e puder lembrar
Da minha amiga, minha infância, da Kaká.

(Danielly Melo)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vamos juntos pra Pasárgada

Ei Manoel, me leva com você.
Pasárgada é canto longe
De lá ninguém me vê

E vamos só de ida
Viagem assim não tem volta
Deixo aqui minhas muletas
Uso sua cadeira de rodas

É lá que eu vou morrer
Enterrar as minhas letras
Acho um louco pra viver
E você suas ninfetas

Passe aqui pra me buscar
Vou juntar um mói de livros
E de roupas pra levar

Mas não me deixe aqui
Viaje não sem mim faça o favor
Porque aqui eu vou fenecer
Sofrer de tanta dor

Esse lugar não tem minha cura
Aqui eu não pertenço
Me tire da agonia
De achar que já não penso

Vamos juntos pra Pasárgada.

Daniell y Melo)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Morreu a música...

Música foi pra onde?
Pulou bastante o carnaval?
Sonorizou o bacanal?
Se escondeu num manguezal...

Contaminada vem voltando.
Está doente minha música, não é mais assim tão pura.
E desespero pela cura.
Mas disseram-me não haver remédio,
e que a música vai mesmo morrer de tédio.
Por favor, chamem um médico!

Preciso mesmo gritar?
Música tá morrendo... E é de tanto se escutar!

Acalma-te minha amada,
isso que ouves não é zoada.
Ambulância está a caminho, a sirene denuncia.
Vem vindo aí um passarinho para findar tua agonia.

Seu doutor, em boa hora chegastes.
Faça o favor, a esperança,
de me dizer que música ainda hoje se levanta.
Que ela mal respira,
mas vai já ali comigo tomar uma birra.

Eu sinto muito, moça!
Sua amiga música já passou pra outra.
Pandemia foi contida, mas música igual ou parecida,
nunca mais vai ser ouvida.

Mas doutor, meu mundo agora desmantelou.
Acabou-se a massagem dos ouvidos, o passeio da imaginação,
acabou até a cura dos feridos e o sentido da paixão.

Beberei a morte de quem me acalentou.
Tanto cantou e me ninou.
Esperar que a ária de novo se faça,
para trazer de volta a graça.
Aos palcos, bailes e muitos bares que reuniram um dia
A melodia em garrafas e em som de alegria.

E o silêncio é o meu copo oco.
Enxergo o fundo do futuro incerto,
de mais uma noite de dor e torpor.
Garçom, traga mais uma, por favor!

(Danielly Melo)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quem somos

Aí esses dias eu parei pra pensar nas inúmeras vezes que tentei definir quem eu sou. Fiz uma definição no orkut... Tem umas poesias minhas (inclusive uma intitulada "EU SOU, EU FUI"), outra do Fernando Pessoa que gosto muito de usar, enfim.

Tem verbo, adjetivo... Tem livro, tem filme, tem comida, tem frase, tem roupa e cor que me definem. Até letra! Tenho letras que me definem. E as pessoas comentam que somos o que comemos, vestimos, dizemos, bebemos, fumamos... Bla, bla, bla.

Mas percebi que sempre que me perguntam quem eu sou eu dou respostas diferentes. Nunca sou a mesma coisa. Seria isso um traço de dupla personalidade? Poxa, logo eu. Nunca quis ser "DOIS" sempre almejei o "UM".

Bem, o fato é que dia desses minha amiga me perguntou se eu era "uma mulher ou um big-big de morango". Tentava me desafiar a ter postura e coragem para alguma coisa bem legal, mas que não me recordo agora (juro). Eu, lógico, disse que não era big-big coisa nenhuma. Podia até ser uma bala xaxá, da de banana, se fosse o caso (ressurgiu das cinzas, inclusive), mas nunca um mero big-big. Aquele chicletinho? Não, nunca. Sai até o gosto fácil.

Bem... Aí os dias passaram, vinha caminhando de volta para casa tentando fazer nova definição de mim mesma, eu não canso disso. Pensei, pensei, e olhe que pensar enlouquece. Pense! E foi quando percebi que não passo mesmo é de um mero chiclete Ploc. Velho, ultrapassado, pregado em alguma carteira de escola, que já foi a alegria de muitos, mas que nem estoura mais.

Ih... espera, grudou no teclado aqui. Hum, gosto de menta!

Pow!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Hipócritas...

Quem são os hipócritas? Aquele famoso clichê "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" é quase uma reza diária. Falastrões, opiniosos e cheios de moral. Todo hipócrita acha que detêm a chave do conhecimento e que está sempre certo, justo e impecável. Ele tem a força! Eu até os invejo porque, poxa, eles não cometem erros. Fazem e dizem tudo sempre certo, na hora e lugar certos. Eles são os caras! Geralmente chatos, pois - como eu disse - ninguém consegue se equiparar ao limiar de exatidão de um hipócrita, suas conversas com seres aparentemente normais não conseguem ultrapassar a barreira dos segundos. Exagero. Algumas vezes até passam minutos conversando. Caso raro. O que gostam mesmo é de monólogos. Nossa, como falam sozinhos! Sentem um prazer enorme em escutar a própria voz. Deve soar como Beethoven. Imaginem ter uma sinfonia dessas só para você? É, esses caras sabem se divertir. Mas eu sei de algo que eles detestam. Vou contar. Eles odeiam escutar. Nunca fale próximo a um hipócrita, fere muito os ouvidos, como uma pequena barata batendo as asas a ponto de estourar seus tímpanos. Isso deve doer. Sei também que eles odeiam as ciências exatas, estudam Demagogia. É, porque eles são cheios de verdades. “A verdade é que...” ou “bem, na verdade...”. Quando você quiser ouvir uma verdade fale com um hipócrita. Ele não falha. Eles conhecem todas as verdades, até as que não existem. Falando nisso... É verdade que quem nasceu primeiro foi a galinha? Bom, mas o fato é que esse pessoal sabe viver. Eles não são muito sociáveis, não têm muitos amigos, aliás, esse negócio de amizade, confiança e coisas do tipo não é muito a praia deles. Você pode até está pensando “mas quem é você para escrever isso?”. Bom, eu não sou ninguém, mas conheço hipócritas. Vai dizer que você não conhece um? Sei um pouco sobre eles. Eu odeio hipócritas, odeio o comando que eles acham que têm sobre o mundo e as pessoas, odeio o jeito como se sentem os donos das “verdades”. E se a leitura disso aqui incomoda é porque algumas “verdades” devem doer e, talvez, isso faça de mim uma irremediável hipócrita. Mas será que sou só eu?

(Danielly Melo)

CARTA

Esperança, mulher, você não morre tão cedo!! Inveja me encontrou recentemente e falou sobre você, a gente tava relembrando nossos tempos de escola, tu se lembra de Saudosismo? Menina, ele tá tão velho... Mas e você, como está? O Tempo aqui não para nem usa coleira. O meu fugiu de casa esses dias, parece que quem achou o bichinho de volta foi Paciência. Saúde vai bem, comprou um carro novo, é um Sentimento 1.0, fraquinho de dá Pena, mas parece que anda mais rápido que a fila. Ficasse sabendo de Juízo? Perdeu a cabeça de vez! Aff, pense num cara chato, num larga do meu pé, e o pior, chamou Dor para passar uns tempos aqui em casa e agora num saem mais. Aí já viu, né? Consciência veio me ver, viu Dor por aqui, foi um Barraco! Falando em Barraco... Bagunça num tá muito bem da cabeça não, anda com umas más companhias, sabe? Tá pra cima e pra baixo com Esquizofrenia. Essa aí, dia desse, tava cozinhando Ironia, errou na mão, misturou foi tudo. Botou Sarcasmo e Cinismo pra ferver, pense num estrago! Ô falta de Talento, meu Deus! E olhe que Perdão disse a ela pra botar uma pitada de Bom Humor que resolvia, aquele jeito dele, né? Vive dizendo que só num tem jeito pra Morte. Pior que é, essa aí se acha só porque diz que pega geral. É mais solta na buraqueira que Ressaca e Moral juntas. Tu tem notícia de Verdade? Faz tempo que não vejo. Vida viajou pra Paris. Eu acho que Solidão foi com ela, visse? Quem tá famosíssima agora é Corrupção! Passou na televisão, deu até uma entrevista exclusiva pra Mentira naquele programa Insônia Maldita, tu assistiu? Mas tá toda besta agora. Ética disse que a avistou e ela fingiu que nem viu, pode?! Saudade viajou também, mas me mandou uma carta dizendo que volta e vai trazer Nostalgia dessa vez. Estresse veio me ver, passou uns dias aqui comigo me ajudando a cuidar de Doença, mas já foi. Confusão tá bem, morando em cima do muro. Deu um fora daqueles em Decisão e foi atrás de Profusão. Pois num foi que casaram e ainda tiveram gêmeos: Prosódia e Paródia. Se merecem esses dois...
Eu e Vento vamos indo... Depois que Talento ficou com Criatividade, fiquei arrasada, mas dei a volta por cima. Você me conhece, sabe que eu não gosto de Drama. Bom, já estou me prolongando demais, daqui a pouco tô igual a Retórica, falando pelos cotovelos, ela e Fofoca são terríveis! Olhe, mande um beijão para Lembrança, diga a ela que ainda tenho aquelas Memórias que ela me deu, viu? Eu vou indo porque Despedida já tá me chamando. E avise a Medo que esse negócio de ter Adjetivos já tá ultrapassado, o negócio é Substantivo agora. Um xero grande. Fica com Deus.

Da sua amiga,
Fé.

HÃ? MUDANÇA ORTOGRÁFICA? QUANDO? COMO? E ISSO JÁ TÁ VALENDO?! VIXE!!!

Ah, a desocupação! Nada como ter absolutamente nada para fazer. Nada novo para dizer, nada para criar, só transformar. Tanta coisa por aí que ainda não foi descoberta ou mesmo inventada. Eu, por exemplo, sinto falta de um pára-brisa para óculos (será que é assim que se escreve agora?). Seria prático ter uma sobrancelha mecânica para os nossos olhos de vidro, não é mesmo? Poxa, por que ninguém inventa isso? Cadê esse povo? Tudo perdendo, ou melhor, passando o tempo recriando o que já está criado. Ei, recriando agora tem hífen? Nossa, que chato... Como vou saber se hoje uma palavra tem acento e amanhã já perdeu? Já é sem acento agora, né? Ai, ai, me confundiu toda, difícil esse negócio... Enternecedor, cômico, trágico.
Que saudades...
Para onde foi a minha madre língua portuguesa? O que fizeram com ela? Que farei das minha linhas? Terei que reformulá-las? Esses tempos modernos me matam! Não se desfaz de coisas assim tão facilmente. Eu não consigo. Já sei! Vou guardar os originais, mostrar aos meus netos como era ser uma amante da escrita analfabeta.
Quanto ócio...
Mas que palhaçada, gramáticos de plantão! Não deu mesmo para se divertir o suficiente mudando dia e noite as normas da ABNT? Poxa, inventem outro joguinho aí... Sei lá... Abram discussões incessantes sobre as origens semânticas dos nomes de, de... De plantas, pronto! Qual a origem da palavra catástrofe, mesmo?
Eita, eles me ouviram...
Silêncio! Eles estão em reunião, em assembléia (esse computador está desatualizado, teimando em colocar o acento no ditongo) sobre “o que fazer com a nossa falta do que fazer”. A resposta à pergunta deve ter vindo da mulher que estava por ocasião servindo o cafezinho. Aí ela disse: “por que vocês não mudam o tempero?” “Como assim?” Indagou um dos ociosos estudantes de coisa alguma. E a mulher respondeu: “eu, por exemplo, sempre que posso coloco um pouco de rapadura para adoçar o café, depois volto a usar o açúcar, e às vezes ainda troco por adoçante...”
Hã?
Ninguém da Távora redonda da vadiagem havia entendido os sábios ensinamentos da Dona do cafezinho. Após dias de averiguação os inativos do saber chegaram à conclusão que a Dona do cafezinho lhes passara uma mensagem sublimar ultra-secreta (com ou sem?). A charada fora resolvida e entendida da seguinte forma:
Abre aspas...
“Encontrada a solução que nos liberta do tédio incessante, entendemos que devemos a partir desta data sacanear os amantes da leitura e escrita e trocarmos algumas das regras já estabelecidas há muitos anos. Percebemos também que proporcionaremos assim uma profusão de confusões incomensuravelmente prazerosas que nos farão delirar de gargalhadas durante muitos prelúdios. Cavalheiros, declaramos que o ócio à que estávamos condenados termina mediante esta data sublime que revolucionará a história... Ou seria estória? Não, não... Me lembrei agora, essa aí a gente mudou faz tempo.”
Fecha aspas...

(Danielly Melo)

Por um mundo mais INHO

Esse mundo tá muito ÃO, Bastião. Sufixo chato, que só traz coisa ruim, grande e com exatidão. Traz futuro e as coisas que acontecerão. Cheio de destruição, explosão, indecisão. E é todo negativo, porque até no 'não' ele se enrosca. Chega carente, passivo e na sua vida faz roça. Mas é disso que o povo gosta. Multidão gosta mesmo de ÃO, né não? Mas eu queria o mundo mais INHO. Queria era um pouco de carinho no lugar da chateação. Queria colinho quando sentisse depressão. Queria um redemoinho, pra varrer daqui a corrupção de colarinho. Queria tanto um passarinho, pra cantar devagarinho e espantar decepção. Queria um selinho, pra acordar da ilusão. Quero é muita água pra lavar esse Sertão.

Mas e se eu juntar o ÃO com INHO?

Sim, porque em terra de Ronaldinho e Robinho também mora Sebastião. Tem as piadas do Joãozinho e escapadas do Ricardão. Tem o menino Maluquinho e toda sua diversão. Estaria a imensidão azul de pé se também não existisse o José? Ficaria difícil para o Drummond falar que a festa acabou e perguntar de supetão: E AGORA JOÃO?

(Danielly Melo)