As belas borboletas que me perdoem, mas, olhando de perto, algumas delas mais parecem meras minhocas aspirantes a Ícaro, com suas asinhas capengas achando que podem tudo, que podem inclusive voar. Essas minhoquinhas agem como vermes. E um verme nada mais é que, segundo o paraibano Augusto dos Anjos, um “operário das ruínas - que o sangue podre das carnificinas come, e à vida em geral declara guerra”. E que nos roem os ossos, espreitam os olhos e descansam no ócio. E, se perturbadas a pensar, deslizam em seus próprios tropeços, se iram e se armam para um voo bélico, querem brigar.
A vida está agora em risco, meus amigos. As borboletas saíram de seus casulos sagrados. Agora todos podem vê-las. Lindas, imponentes, femininas e mandonas. Elas nos declaram guerra, e é dada a largada. Salvem-se quem puder. Corram, fujam! Vão de avião os mais abastados, ou de carro os que conseguem pagar pela gasolina, ou mesmo de ônibus os que têm sombrinhas e fôlego para enfrentar o caos. Vão a pé os errantes sem causa, entoem cânticos os artistas falidos, queimem pneus os mecânicos frustrados. Vão às ruas, parem o trânsito, segurem firme seus sprays contra esses vermes de asas, ensaiem o coro e gritem em uníssono o desespero de nada poder fazer contra o absurdo.
Até porque, meus amigos, absurdo mesmo é usar de contradições para se conseguir o que quer. Como fazer guerra em prol da paz, gritar para conseguir silêncio ou roubar para tomar de volta o que lhe foi furtado. As borboletas não pisam o chão dos meros mortais, não dirigem de volta para casa sob a desordem dos quilométricos engarrafamentos, não escutam seus bailes funk de protestos, não sentem cheiro de pneu queimado, não têm trabalho para o qual se atrasar. Seus ouvidos estão ocupados com música clássica, seus jatinhos muito bem estacionados (e elas sabem voar), seus olfatos maculados de perfume francês e seus pés repousam nas redes dos injustos.
Não é daqui de baixo que se faz uma borboleta se aposentar. Elas não rastejam mais, amigos, saltam voos altíssimos. Armem-se de baladeiras intelectuais. Derrubem esses insetos com pesticidas de massa, com o poder que, sim, emana do povo. O poder de protestar contra quem tem que ser magoado, de perturbar quem deve ser irritado. Essas borboletas têm um lugar oficial. Vão até lá! De lá a fumaça vai sim esquentar o friozinho do ar condicionado, o barulho vai sim perturbar os telefonistas pendurados e suas vozes vão sim fazer o sentido desejado. E então será declarado o fim da guerra, as formiguinhas domarão a megera, e não haverá mais inúteis quimeras. Verme nenhum vai nos roer a ponto de nos deixar apenas os cabelos na frialdade inorgânica dessa terra!
(Danielly Melo)