domingo, 27 de maio de 2012
Ctrl+Alt+Del
Abra a cabeça.
Sempre que me dizem isso imagino meu estojo sendo rasgado e vasculhado. Meus instrumentos, meus pincéis, minhas ideias feitas de grafite e tinta expostas ao julgamento de quem me pede. Abrir a cabeça não é fácil. Porém preciso. Incomoda ter sua concentração descontinuada pelo sujeito que, no meio da prova, pede emprestado uma esferográfica. O seu trem de pensamento é interrompido. Nos resta esperar o próximo expresso.
E se abrirem meu estojo? O que verão? Lá estão meus anseios mais secretos, minhas ideias perversas, meus amores indiscretos, minhas vontades censuradas. Isso tudo se fecha, coisas que se guardam. A abertura precisa ter propósito. Não te empresto minha caneta se você não pedir. Também não permito que a tome sem eu permitir. É uma lei natural de oferta e procura. Não saio por aí oferecendo a minha cabeça aberta, e nem todos querem ter essa tal fresta. Você pede, eu concedo. Assim caminha a insanidade.
Algumas peças, porém, eu não empresto.
Ajudo você a escrever, peça meu lápis, meu caderno. Quer minha caneta favorita? Se quebrou eu conserto. Tenho ponta nova para a sua lapiseira. Pode pegar o meu grampeador, capte, segure e prenda bem os seus conceitos. Só uma coisa não me peça. Só uma coisa eu não te dou. Acho pessoal, desconfortável. É, na verdade, íntimo demais, invasivo. Como a escova de dentes, o sabonete e o parceiro(a). Assim é emprestar a borracha.
Não concedo o meu apagador de erros. Ele é meu. Deleta e esfrega com intimidade os meus desacertos mais bisonhos. Não vou deixar você tocar o instrumento que conhece e ofusca a parte mais frágil de mim. Fique longe do meu corretivo! Esse pincel jamais vai pintar de branco a sua tela. Ele existe para disfarçar o que eu quero mais profunda e secretamente esconder, deixe-o fora disso.
Não. Não me peça esse sacrifício. Eu até lhe dou o furador para você cavar os buracos e túneis da vida que lhe fecham as passagens. Também não me importo se você quiser cola e fitas adesivas para dar um pouco de sustentação na sua vida. Você quer aventuras, imprevisibilidade, elasticidade? Tenho muitas ligas de borracha. E, quando estiver bem mais velho e quase sem memória, eu dou de presente um bloquinho de notas para você guardar, narrar e lembrar a vida.
Mas não me tire as muletas. A minha borracha, meu corretivo, meu Ctrl+AlT+Del são as minhas formas de recomeçar. Porque só tenho no momento uma certeza na vida que minuto. É que as letras que eu amo, o português que escrevo, os pensamentos que digito um dia eu vou errar. E a única chance de não morrer é ter uma nova oportunidade de reconhecer, refletir e tentar de novo... Logo então que eu apagar.
Copiou?
Ok... Agora já pode deletar.
(Danielly Melo)
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