quarta-feira, 25 de maio de 2011

Spray contra vermes de asas



As belas borboletas que me perdoem, mas, olhando de perto, algumas delas mais parecem meras minhocas aspirantes a Ícaro, com suas asinhas capengas achando que podem tudo, que podem inclusive voar. Essas minhoquinhas agem como vermes. E um verme nada mais é que, segundo o paraibano Augusto dos Anjos, um “operário das ruínas - que o sangue podre das carnificinas come, e à vida em geral declara guerra”. E que nos roem os ossos, espreitam os olhos e descansam no ócio. E, se perturbadas a pensar, deslizam em seus próprios tropeços, se iram e se armam para um voo bélico, querem brigar.

A vida está agora em risco, meus amigos. As borboletas saíram de seus casulos sagrados. Agora todos podem vê-las. Lindas, imponentes, femininas e mandonas. Elas nos declaram guerra, e é dada a largada. Salvem-se quem puder. Corram, fujam! Vão de avião os mais abastados, ou de carro os que conseguem pagar pela gasolina, ou mesmo de ônibus os que têm sombrinhas e fôlego para enfrentar o caos. Vão a pé os errantes sem causa, entoem cânticos os artistas falidos, queimem pneus os mecânicos frustrados. Vão às ruas, parem o trânsito, segurem firme seus sprays contra esses vermes de asas, ensaiem o coro e gritem em uníssono o desespero de nada poder fazer contra o absurdo.

Até porque, meus amigos, absurdo mesmo é usar de contradições para se conseguir o que quer. Como fazer guerra em prol da paz, gritar para conseguir silêncio ou roubar para tomar de volta o que lhe foi furtado. As borboletas não pisam o chão dos meros mortais, não dirigem de volta para casa sob a desordem dos quilométricos engarrafamentos, não escutam seus bailes funk de protestos, não sentem cheiro de pneu queimado, não têm trabalho para o qual se atrasar. Seus ouvidos estão ocupados com música clássica, seus jatinhos muito bem estacionados (e elas sabem voar), seus olfatos maculados de perfume francês e seus pés repousam nas redes dos injustos.

Não é daqui de baixo que se faz uma borboleta se aposentar. Elas não rastejam mais, amigos, saltam voos altíssimos. Armem-se de baladeiras intelectuais. Derrubem esses insetos com pesticidas de massa, com o poder que, sim, emana do povo. O poder de protestar contra quem tem que ser magoado, de perturbar quem deve ser irritado. Essas borboletas têm um lugar oficial. Vão até lá! De lá a fumaça vai sim esquentar o friozinho do ar condicionado, o barulho vai sim perturbar os telefonistas pendurados e suas vozes vão sim fazer o sentido desejado. E então será declarado o fim da guerra, as formiguinhas domarão a megera, e não haverá mais inúteis quimeras. Verme nenhum vai nos roer a ponto de nos deixar apenas os cabelos na frialdade inorgânica dessa terra!

(Danielly Melo)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011



Na minha palma a minha alma
O meu espirito, meu rosto limpo
O travesseiro, a cama, a lama
Minha carne crua, meu mar, meu risco
Minha luva, minha musa, minha calma
Minha dor, minha cara, minha cor
Meu sufoco, meu esforço, minha verdade

Na minha mão a minha sinceridade.

Meu alívio, minha paz,
Ou minha guerra... Tanto faz.
Nela o meu uísque, meu cantinho triste
Nela minha emoção, minha ilusão
Por ela a dedicação
Para ela o meu espelho
E nela o meu desejo inteiro
De ter no toque a sua mão.

"Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol..."

Paura



O medo é pequeno
Um verme podre terreno

Um micróbio transparente
Um elétron insistente

Não tem força de vulcão
Nem chega a ser um furacão

É um ponto no espaço
E que gira no compasso

Para esconder a solução
Aos que lhe abrem o coração

Permita-me que o enforque
E peço-te que se esforce

Que ao medo não pereça
Que de dia não adormeça

Que acredite no meu sonho
Não esfrie meu outono

Olhe pra frente, veja agosto
Dia primeiro, sorriso no rosto.