segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Difícil saber

A gente pensa que muda, pensa que abafa, pensa que inova, pensa que acha solução, pensa que tem respostas, pensa que ensina, pensa que aprende.
A gente pensa que sabe, pensa que vive, pensa que sofre, pensa que conserta, pensa que conhece, pensa que ajuda, pensa que odeia, pensa que perdoa, pensa que ama, pensa que encanta. 
Putz, a gente até pensa que limpa, pensa que pinta, pensa que escreve e pensa que entendem. Mas ninguém entende.
E porque será que é tão difícil essa compreensão?
Eu penso que é porque pensam que pensam. 

Mas, pensando bem, não sabem.

(Danielly Melo)

domingo, 3 de junho de 2012

Faça o seguinte... vá lá.

E aí? Tudo bem aí?
Aqui tá tudo aqui
Mas aqui tá meio aí, sabe?
Às vezes meio pra lá e pra cá
Sem saber aonde chegar.

Aí eu digo: mas e daí?
E daí que aqui tá aí!
E aí? Tais aqui?
Eu tô lá. Mas pra lá, do que pra cá.
E daqui pra lá dá pra sentir
Que você não tá aqui.

Mas e aí? Vem cá, me conta...
Você aí desse seu “vá lá”
Já pode olhar pr’aqui e assumir
Se ainda você tá por aí?
Ai, doeu aqui.
Vou lá.

 (Danielly Melo)

domingo, 27 de maio de 2012

Ctrl+Alt+Del

Abra a cabeça. Sempre que me dizem isso imagino meu estojo sendo rasgado e vasculhado. Meus instrumentos, meus pincéis, minhas ideias feitas de grafite e tinta expostas ao julgamento de quem me pede. Abrir a cabeça não é fácil. Porém preciso. Incomoda ter sua concentração descontinuada pelo sujeito que, no meio da prova, pede emprestado uma esferográfica. O seu trem de pensamento é interrompido. Nos resta esperar o próximo expresso. E se abrirem meu estojo? O que verão? Lá estão meus anseios mais secretos, minhas ideias perversas, meus amores indiscretos, minhas vontades censuradas. Isso tudo se fecha, coisas que se guardam. A abertura precisa ter propósito. Não te empresto minha caneta se você não pedir. Também não permito que a tome sem eu permitir. É uma lei natural de oferta e procura. Não saio por aí oferecendo a minha cabeça aberta, e nem todos querem ter essa tal fresta. Você pede, eu concedo. Assim caminha a insanidade. Algumas peças, porém, eu não empresto. Ajudo você a escrever, peça meu lápis, meu caderno. Quer minha caneta favorita? Se quebrou eu conserto. Tenho ponta nova para a sua lapiseira. Pode pegar o meu grampeador, capte, segure e prenda bem os seus conceitos. Só uma coisa não me peça. Só uma coisa eu não te dou. Acho pessoal, desconfortável. É, na verdade, íntimo demais, invasivo. Como a escova de dentes, o sabonete e o parceiro(a). Assim é emprestar a borracha. Não concedo o meu apagador de erros. Ele é meu. Deleta e esfrega com intimidade os meus desacertos mais bisonhos. Não vou deixar você tocar o instrumento que conhece e ofusca a parte mais frágil de mim. Fique longe do meu corretivo! Esse pincel jamais vai pintar de branco a sua tela. Ele existe para disfarçar o que eu quero mais profunda e secretamente esconder, deixe-o fora disso. Não. Não me peça esse sacrifício. Eu até lhe dou o furador para você cavar os buracos e túneis da vida que lhe fecham as passagens. Também não me importo se você quiser cola e fitas adesivas para dar um pouco de sustentação na sua vida. Você quer aventuras, imprevisibilidade, elasticidade? Tenho muitas ligas de borracha. E, quando estiver bem mais velho e quase sem memória, eu dou de presente um bloquinho de notas para você guardar, narrar e lembrar a vida. Mas não me tire as muletas. A minha borracha, meu corretivo, meu Ctrl+AlT+Del são as minhas formas de recomeçar. Porque só tenho no momento uma certeza na vida que minuto. É que as letras que eu amo, o português que escrevo, os pensamentos que digito um dia eu vou errar. E a única chance de não morrer é ter uma nova oportunidade de reconhecer, refletir e tentar de novo... Logo então que eu apagar. Copiou? Ok... Agora já pode deletar. (Danielly Melo)

domingo, 25 de março de 2012

Santo de dia

Fala a verdade, aquela graminha verde, molhada e nova do vizinho tira o seu sono, não é? Vai, confessa, eu sei que você vigia o pomar alheio todo dia. Aquela vontade louca de pulverizar os jardins, as rochas e até as flores de plástico com veneno, muito veneno. E então você observa. Lê, relê, critica, maldiz, acha bobo, chama de “todos os santos”, mas você simplesmente não desiste. Você não consegue deixar viver aquilo que não é, curiosamente, seu.

Já se perguntou por quê? Então, não se dê ao trabalho. Deixe-me ajudá-lo(a). Devo dizer que você sente-se assim, guarda todo esse fel no estômago, enxerga esse mal no próximo e escuta asneira nessas suas grandes orelhas porque você é um jumento(a). Isso mesmo! Um burro de grandes cargas. Carrega consigo a vida dos outros, leva na sua carroça ambulante as experiências estranhas, você rouba alegrias, frustrações, biografias.

E vive do quê? Você as vende. Vive de REPASSAR a existência que não lhe cabe, vende santinhos. E ganha bem. Você ganha muito bem, porque assim como o palhaço só é engraçado quando tem platéia, você é rico porque tem quem compre seu lixo furtado. E outra coisa: você ouve muito, sua aparelhagem é moderna, não é? É... É que essas orelhas compridas lhe servem muito bem, todo bom comerciante-meliante precisa saber ouvir o mercado, a concorrência anda solta, sem cabresto.

Ah, sim, o tal do cabresto! Complica um pouco sua visão, não é? Limita seu campo a olhar para frente, e só para frente. Você então não dispõe da CAPACIDADE de contemplar o lado, de ver quem está por perto. A pena que faz é você cair, já que seu alcance é de apenas um palmo à frente do próprio focinho. Falando em focinho, você parece não usá-lo adequadamente, digo... Na minha opinião, lógico. Esquece de cheirar o capim antes de ingerir, isso é que provoca tanto lixo, fel e azedume na barriga. Ponha para fora! Descarregue essa merda toda no esgoto. Ou será que já faz? Ah, é, lembrei. Você é um jumento, confunde vaso sanitário com colchão e travesseiro, dorme tranqüilo em sombra de igreja e se lambuza em lama todo dia. Todo SANTO dia. Mas vejam só! De santo, só o dia.

Danielly Melo)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Nosso real confete

Perdoem-me a falta de manifestação feminina e feminista em favor do Dia Internacional da Mulher. Confesso que estive ocupada, desligada, desinteressada do tema até pouco tempo. Foi então que, aos vários pingos d’água, debaixo do chuveiro quente, me veio à memória uma espécie de repente. Mas hoje não me dou por rimas. Só quero contar. Quero falar do meu “muito obrigada”, mas também dizer do meu “e daí”. Muito obrigada pelos elogios e conclames de congratulações. Obrigada a lembrança, obrigada o carinho, o reconhecimento e a reverência. É... Mas também, e daí? E daí se você ama mulheres, admira nossa capacidade e comemora nossa evolução? E daí se você enxerga que somos lindas de alma e temos pernas para grandes passos e podemos sim pensar sozinhas? E daí, colega? E D-A-Í?

Não me leve a mal, não é falta de agradecimento. É que olhando assim de longe eu percebo a empolgação de quem fala aos quatro cantos do amor exacerbado, desse respeito redobrado por nós meninas, mulheres, fêmeas de sorte, mas noto também que não se dão conta do próprio papel. Acostumamos-nos a idolatrar as mulheres sob a condição de humilhar os homens. Tanto que, mesmo em face de um galanteio, os machos são remetidos a imagem de uma grande mulher, sempre por trás de seus atos nobres. Como se a comunidade masculina não fosse capaz, por si só, de cometer bravuras. Nós somos é sortudas. Digo que somos sortudas porque acredito que o ditado que durante tanto tempo foi habitual entre nós está na verdade invertido. Por trás de um grande homem nem sempre se esconde uma grande mulher. Não. Ela muitas vezes é minúscula, pequena em suas decisões, uma ervilha no canto de parede que nada mais faz que se “esconder” atrás daquele que ela vê e julga grande, maior, melhor. E ainda bem que existe a evolução, não é? Ufa!

Pois então... Invertido! Esse ditado está contrário, meus caros. É um grande homem que está sempre atrás daquela gigante mulher que nós admiramos. Só um grande homem consegue sustentar o peso da coroa de sua rainha cansada. Que para dormir deita seu tesouro na cabeceira e esquece-se de polir. Azafamada, cheia, atarefada. Sua cabeça está lotada do que terá pela manhã. Vai dormir sem beijar seu príncipe, acorda e esquece do banquete que ele preparou. Seu banho de ervas fica para depois e o penteado hoje pode ser uma peruca. Ainda assim grande. Linda, majestosa, firme, versátil, fugaz. E o homem? Onde está? Está parado, meus caros. Parado olhando aquela mulher enorme tirar sua coroa, deitar sua peruca, estalar os dedos calejados dos pés e dormir silenciosa como neve. Parado a admirar a força de quem termina o dia e tem fôlego para o olhar e dizer: “Boa noite, amor, obrigada por me aguentar”.

Esse sim é um homem gigante. Suporta, supera, sustenta, aguenta. Em um homem assim deitamos, rolamos, fazemos ninho só porque sabemos que a base é forte, nos ancora. E isso, meus caros, nada mais é que um exemplo de evolução da espécie. O macho vai atrás do que lhe cabe. O que ele ama ele quer por perto, então ele cresce, olha sua mulher nos olhos, não se põe nas pontas dos pés, porque sabe que se ela tropeçar ele os tem firmes no chão para ampará-la. É, meus caros, os tempos mudam, mas o Sapiens se adapta, percebe que seu habitat mudou, sua mulher cresceu, agigantou e ele, por amor, acompanhou. Isso enfim é o louvor, o confete que queremos.

Obrigada, homens!

(Danielly Melo)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Causos de Família


A mãe amava seus trigêmeos, não exatamente da mesma forma, lógico, pois eram criaturas diferentes e não se pode amar desiguais de forma igual. Amava-os desigualmente. Porém de forma proporcional. Imenso seu amor pelos três. Só não entendia como conseguia confundir ainda a própria cria. Atrapalhava-se com os nomes sempre achando que até entre eles não se sabia quem era quem.

Enganava-se a mamãe amorosa. Não há no mundo ser que se confunda. Que ache que é, mas que não é. Que ache que pode, mas que não pode. Que ache que sente, mas que não sente. Há quem minta. Ah, isso sim! Mas entre os trigêmeos não havia confusão. Não. Entre eles tudo era às claras. Insegurança sabia bem quem era, conhecia suas falhas. Imaturidade não gostava muito do lance de se avaliar, achava perda de tempo e muito dispendioso o autoconhecimento, mas não se embananava. Que dizer então de FilhaDaPutagem? Bem, essa aí, nascida primeiro, era a líder da turma. Segura, madura e experiente. Com ela não havia enganos, a não ser os propositais.

Ou vai dizer que você pensou que a mamãe era a megera que nem os filhos distinguia? Não. A mãe era a boba da corte, que aplaudiu de pé os tropeços e artimanhas de sua primeira filha enquanto julgou e culpou a lamúria dos outros dois. A primogênita, nata artista, se fazia passar pelos consangüíneos. Tomava vantagem da inocência de Insegurança e justificava suas vicissitudes fingindo ser Imaturidade. Mas que esperta essa tal de FilhaDaPutagem!

A quem será que puxou? Ao pai talvez... Ou será que é só mais um fruto perdido da mamãe Insensatez?

(Danielly Melo)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Meus grãos de café

É quando as palavras me faltam que mais tenho ânsia de escrever. Que fazer? Alguém devolva meus pensamentos. Por que me fogem as ideias se agora o que eu mais queria era gritar? Um grito tão alto, tão forte que marcaria até a terceira página do caderno. Gritar sem voz, sem tom, sem timbre. Gritar com tinta, com cor, um arco-íris sempiterno.

Qual a cor do grito?

Preta, pensei. Assim traduzo ao leitor, ao ouvido, a ânsia de que antes falei. Sim, meu grito é negro. Escuro como café porque até aos que de olhos fechados fitam, conseguiria explicar o que é sentir sem expressar. É como a fé do Tomé. É como estar sem papel e ter uma coleção de lápis nas mãos. Como ter cordas vocais perfeitas e a boca costurada até os ouvidos. Como comprar um tênis novo e os pés não possuir.

Assim estou a me sentir...

Vontade de gritar a tinta que vem de dentro. Mas o caderno se rompeu, as folhas voam ao vento. E com os pedaços que juntei, aqueles que eu chamo de felicidade, os pedacinhos, são com eles que me contento. Meus grãos de café forte, preto. Tão descontentamente descontentes. Tão vazios, só, perdidos, que nem mais me lembram das palavras fantasmas embaralhadas no meu umbigo.

Ah, cafeína minha de todos os dias!

Com ela acordei e ela eu abracei, por ela derramei, com ela fui dormir a insone madrugada dos que pensam. Acredite, viajei, apaguei... Ah, eu gostei! Mas é pena, leitor, que não foi com ela que sonhei. Um po’ di latte, per favore!

(Danielly Melo)