É quando as palavras me faltam que mais tenho ânsia de escrever. Que fazer? Alguém devolva meus pensamentos. Por que me fogem as ideias se agora o que eu mais queria era gritar? Um grito tão alto, tão forte que marcaria até a terceira página do caderno. Gritar sem voz, sem tom, sem timbre. Gritar com tinta, com cor, um arco-íris sempiterno.
Qual a cor do grito?
Preta, pensei. Assim traduzo ao leitor, ao ouvido, a ânsia de que antes falei. Sim, meu grito é negro. Escuro como café porque até aos que de olhos fechados fitam, conseguiria explicar o que é sentir sem expressar. É como a fé do Tomé. É como estar sem papel e ter uma coleção de lápis nas mãos. Como ter cordas vocais perfeitas e a boca costurada até os ouvidos. Como comprar um tênis novo e os pés não possuir.
Assim estou a me sentir...
Vontade de gritar a tinta que vem de dentro. Mas o caderno se rompeu, as folhas voam ao vento. E com os pedaços que juntei, aqueles que eu chamo de felicidade, os pedacinhos, são com eles que me contento. Meus grãos de café forte, preto. Tão descontentamente descontentes. Tão vazios, só, perdidos, que nem mais me lembram das palavras fantasmas embaralhadas no meu umbigo.
Ah, cafeína minha de todos os dias!
Com ela acordei e ela eu abracei, por ela derramei, com ela fui dormir a insone madrugada dos que pensam. Acredite, viajei, apaguei... Ah, eu gostei! Mas é pena, leitor, que não foi com ela que sonhei. Um po’ di latte, per favore!
(Danielly Melo)
Beleza pura ! Cafeína noturna
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